20 abril 2012

Carta para uma menina ruiva


Já é tarde demais para ser amado. Já não é mais tempo. Depois de certa idade a vida nos afaga de outro jeito. Para mim essa hora chegou cedo feito alvorada. Como chegaram todas as outras coisas. Minha vida foi sempre um trem que partia antes do horário, poupando os gestos de adeus na plataforma da estação. Não há mais tempo para esses amores que nos chamam, suspirando pelas esquinas. Talvez a estrada. Talvez o silêncio. Talvez um monastério perdido nas montanhas. Mas amor não há mais para nós. Amar não é mais permitido quando se rompe a intimidade das coisas. Antes virar bicho, estrela ou imensidão. Mando sinais, mas não há resposta. Já falei tanto de amor e hoje não o reconheço. São estranhas essas condições. Lá fora um casal sorri do outro lado da rua. Em meu peito só habita a estranheza. Alguém tirou a doçura de viver que eu tinha. Agora é só uma tarde eterna que se estende vagarosa. O calor me irrita. Logo não representarei mais nada, nem pra ela, nem pra mim. Todos cansam. Somos imperfeitos. Estou pronto para o fim.


Desconhecido

Nenhum comentário:

Postar um comentário